Serenai verdes mares

Primeiramente, a Serra da Ibiapaba com seus esplendorosos declives e aclives, seu clima característico, suas cidades encantadas. Lá, conheci a primeira obra gigantesca da natureza, no Ceará. Depois, Fortaleza ensolarada e acolhedora. E caminhos, muitos caminhos que levam a muitas cidades.

A terra é de quando em vez batida pela estiagem que o homem enfrenta sem trégua. Se foge, volta logo depois. Às vezes é a água abundante que varre casas e lavouras, rebenta açudes, causa epidemias e prejuízos incalculáveis. Mas o homem desta terra é valente; não se deixa dominar. O seu pensamento constante é de reconstrução. Nasce a cada tormenta e retorna mais obstinado para vencer as adversidades.

Há também poesia nesta terra de trabalho e dor. Em Russas, o vento Aracati é brisa que nos conforta à noite. Fustigado pela curiosidade de conhecer as belezas que diziam existir por lá, fui a Aracati, porém foi em Majorlândia que encontrei a fonte dos ventos.

Lá, antes de avistar as jangadas, banhistas, casas e barracos na praia, vislumbrei ao longe, na linha do horizonte, um verde mar de um matiz nunca dantes visto por meus olhos. Acudiu-me naquele instante achar-me de fato na terra de Iracema, a virgem dos lábios de mel. Então, lembrei-me de José de Alencar:

“Verdes mares bravios de minha terra natal onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba. Verdes mares que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros. Serenai verdes mares e alisai docemente a vaga impetuosa para que o barco aventureiro, manso resvale à flor das águas”.

Serenai, verdes mares, para que o viajor estrangeiro que aqui aporta, possa, inspirado na inabalável fé dessa gente, resvalar docemente seu barco por ondas menos encrespadas e, de mãos dadas aos seus companheiros, chegar ao próximo porto com a consciência tranqüila do dever cumprido.

(1979)

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