Senhora do Nosso Destino

SENHORA DO NOSSO DESTINO

Autor: Francisco Silva

Homem com homem. Mulher com mulher. Menina negra e favelada seduzida por homens brancos, um deles menino, filho do prefeito, gerando filhos em série. Um desfile ininterrupto, em qualquer capítulo, de casais na cama, não interessa a espécie de casal: às vezes, um homem com duas mulheres; ou uma mulher com dois homens. Tudo sempre na cama, os dorsos nus, cenas picantes, por muito pouco não há nus frontais e sexo explícito, basta baixar um pouco a câmera. Nas residências, familiares, sempre há um quarto, onde a garota recebe – na cama, claro –, para passar a noite, com o beneplácito da mãe, o rapaz que acabou de conhecer na rua.

Se você ainda não viu, corra e ligue o canal aberto de TV na novela Senhora do Destino, às nove horas da noite, todos os dias, exceto aos domingos, quando os nossos filhos e netos ainda estão bem acordados e atentos a tudo.

Você verá mais… Verá que um dos heróis mais populares para o telespectador é um ex-bicheiro da baixada fluminense, agora envolvido com a bandidagem, fortemente armada, da região (também representando heróis) e com trambicagens com os políticos locais. Os políticos, aliás, são todos corruptos e malévolos, não se há de esperar deles qualquer fímbria de decência. Uma mulher casada, ex-drogada, também negra e favelada, recebe o amante em casa, na cama, é óbvio, na frente dos filhos, e com o incentivo deles. Uma união estável de homossexuais – lésbicas, no caso – quer adotar um bebê (negro, é claro, o racismo é subliminar, não vá o casal querer adotar um bebê loirinho). Um pai angustiado com o destino da filha única é crucificado a cada capítulo, para gáudio do telespectador. Verá violência, tiros, assassinatos, traição, maldades, mentiras, mas tudo isso são apenas detalhes.

Essa realidade virtual decididamente não é o nosso Brasil. Ela foi construída e emerge da vasta e devassa imaginação do noveleiro Aguinaldo Silva. Atingiu, segundo a revista Veja, a audiência de 80% – o maior sucesso de todos os tempos. Isso significa que oito em cada dez aparelhos de TV, no país inteiro, estão sintonizados nas cenas, alguma coisa como 45 milhões de brasileiros de todas as idades. O objetivo mais importante foi atingido: alguns milhões de garrafas de cerveja de certa marca serão vendidas a mais, alguns milhões de impulsos telefônicos extras, sabe-se lá quantas centenas de milhares de novos aparelhos de telefone celular, e por aí a fora. É um mercado milionário, sem dúvida. Ah, essa questão da formação de nossos jovens, da apologia do racismo, da concupiscência, da promiscuidade, da devassidão, e a criação de falsos estereótipos, a questão moral e o respeito à verdadeira índole da imensa maioria do nosso povo, tudo isso em si, bem, isso é uma questão menor.

Ah, a natureza humana… As paixões humanas, inclusive o amor, o sexo, a ambição, as ambivalências a que o homem é conduzido, isso tudo vem sendo psicanalisado, desde que a linguagem foi inventada e o homem tornou-se capaz de refletir. Hoje, com a acumulação do conhecimento nas ciências biológicas, na sociologia, na psicologia, na antropologia, é praticamente impossível afirmar-se qualquer coisa, se é certo ou errado, natural ou antinatural, bom ou mau. Mas um mínimo de convicções e de hábitos culturais, produto de milênios de civilização, deve remanescer cristalizado na sociedade, determinando o que chamamos de moralidade.

Na dramaturgia e na literatura, tais paixões foram exploradas com uma grandeza insuperável por Shakespeare, ainda no século XVI, mas, desde seis mil anos atrás, o espírito humano tem sido honrado e enlevado pela existência de homens como Homero, Dante, Dostoievski, Victor Hugo. O Brasil não fica atrás em talento e graça. Leia-se Machado de Assis ou Guimarães Rosa e certamente sentiremos orgulho de nossa condição de brasileiros. Foram homens que perceberam com clareza e vigor essa ambigüidade da natureza humana e inseriram os dramas e angústias do homem em contextos belíssimos, quase que dignificando a sua condição humana, apesar dos conflitos, das ambivalências, dos instintos básicos aflorando em circunstâncias especiais. Aguinaldo da Silva, o noveleiro, não demonstra este compromisso com a grandeza e a potencialidade do espírito humano. A sua “arte” é exercida com uma caneta na mão e os olhos grudados no audienciômetro, conforme ele próprio confessa. Audiência baixa, apimenta-se mais o folhetim. Dê-se-me um espaço compatível na mídia e a liberdade de exibir o que eu quiser, e eu garanto a qualquer patrocinador, noves-fora a minha honra e os meus compromissos éticos, índices de audiência ainda maiores que os 80 pontos no IBOPE.

A civilização foi moldada aos poucos, desde a antiga Mesopotâmia, onde é hoje o Iraque. Civilização significa organização do controle social dos instintos naturais do homem. Sem a civilização, não existe o respeito ao direito de propriedade, à mulher do vizinho, à vida de quem quer que seja. Toma-se o que se deseja tomar, e eliminam-se os obstáculos. Mata-se o rival, estupra-se a fêmea, subtrai-se sumariamente de alguém qualquer objeto do desejo – comida, mulheres, bens, terras. É a barbárie, o homem em seu estado primitivo. Mas depois de transposto esse estado ancestral, em qualquer comunidade conhecida, mesmo em tribos indígenas descobertas mais recentemente, existem resquícios de civilização, ou regras a serem obedecidas.

Por isso mesmo, uma certa inércia é inerente às diferentes civilizações. A cultura pode ser transformada, mas isso é feito os poucos, com cuidados e sensibilidade, exigindo a sedimentação das acomodações sociais adjacentes que decorrem disso. Em caso contrário, estaremos forçando uma ruptura, como aconteceu, mais recentemente na história da humanidade, com a Revolução Francesa, com a experiência comunista ou com o nazismo. Cabeças foram decepadas, milhões de seres humanos foram assassinados ou meramente exterminados, e tudo isso para se chegar a um novo patamar de organização social. Que também passa a necessitar de uma certa inércia, para sobreviver.

Quando o noveleiro Aguinaldo Silva, estimulado pelos seus patrocinadores, e motivado pela fama e pelo lucro, está mostrando como corriqueiros padrões chulos de comportamento humano que absolutamente não representam, em sua esmagadora maioria, a cultura brasileira, está incutindo subliminarmente em dezenas de milhões de espíritos entorpecidos, e não preparados para a crítica, valores que catalisam a ruptura de nossa sociedade. A serviço de quem um noveleiro pode agir assim? O Senhor Aguinaldo Silva não tem filhos, netos, pais, irmãos, família, sobrinhos, amigos? Dizem que mora sozinho, numa magnífica casa na Barra da Tijuca. Que descompromisso é esse? O que ganha esse operador da mídia em enxovalhar a sociedade brasileira, nivelando por baixo a nossa índole, e promovendo explicitamente uma apologia de valores que ainda estão por ser definidos em nossa cultura mas que, inelutavelmente, poderão influenciar milhões e milhões de crianças, adolescentes e jovens ainda imaturos e carentes de senso crítico? Dinheiro? Isso é muito pouco! Por que a emissora que veicula a novela Senhora do Destino permite essa ameaça ao nosso povo?

Há algo de profundamente errado na televisão brasileira !

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