Pai Ventania

Pai Ventania
João Costa

Ajoelhado ali aos pés da entidade, um pouco sem jeito, tive que explicar qual a minha atividade profissional, atendendo a uma das inúmeras perguntas que me fizera o Pai Ventania, que naquele momento falava através de Dona Rita Baiana, mãe-de-santo do terreiro.

Antes do desfecho desse inesquecível encontro, é importante voltar um pouco no tempo. Estamos no ano de 1974. Eu iniciava meu estágio profissional no IPES – Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais, Autarquia do Sistema Estadual de Planejamento, responsável pelo municiamento de estudos e pesquisas sócio-econômicas necessários à formulação dos planos de ação do Governo do Estado. Nós éramos seis estagiários e disputávamos quatro vagas de economista.

O contratado teria que obter bom desempenho ao longo do estágio cuja avaliação era feita pelo coordenador de projeto. A briga era acirrada. Apostei todas as fichas nessa chance. Casado, a mulher esperando o primeiro filho, devendo na praça, desempregado, pois pedira demissão do Banco Real, após oito anos de trabalho, aquele emprego era a minha salvação.

O estágio consistia no acompanhamento e análise de determinados indicadores sócio-econômicos da economia maranhense e com isso podíamos avaliar o desempenho, no curto prazo, da indústria, do comércio da agricultura etc. O resultado dessa pesquisa era divulgado mensalmente, através da Revista Conjuntura Maranhense. O profissional dessa área é o analista conjuntural. Trata-se de um ramo da economia, bastante em moda na década de 70, que no Nordeste, recebia o incentivo da SUDENE.

Foi nessa época, em que uma conhecida nossa sabedora da minha luta e desejando antever o meu futuro no IPES, encomendou uma sessão com a tal mãe-de-santo que, segundo ela, era alguém muito competente no ramo, capaz de prever o futuro das pessoas com incrível precisão porque contava com a colaboração do Pai Ventania, entidade famosa com baita folha de serviços prestados em inúmeros terreiros da Ilha.

No início, quando soube da tal consulta, não concordei e ameacei de lá não comparecer. Depois, pela insistência e não querendo desagradar a bondosa amiga, contratante dos serviços, aceitei encarar a divindade, até porque eu também queria saber se seria ou não contratado. E lá estava eu, como falei no início, de joelhos aos pés do seu Ventania a tomar longas baforadas de fumaça do seu charuto ao tempo em que Dona Rita me batia forte nas costas com um lenço vermelho, coisas do ritual ali praticado.

– O que mô fio faz na vida? Perguntou-me a entidade, com uma voz trêmula entrecortada por uns fungados estranhos. Respondi-lhe de pronto:

_ sou estagiário de economia e trabalho na área de estudos sócio-econômicos da conjuntura econômica estadual. Quem trabalha nesse ramo da economia aplicada é um profissional em análise conjuntural.

Fez-se um longo silencio no ambiente por alguns minutos. Observei que o meu interlocutor meditava. Deixara de lado o mal cheiroso charuto. Seus olhos, quase sempre fechados, agora estavam arregalados olhando para os presentes como que perguntando: que diabo é isso que esse rapaz faz? Por certo seria mais simples para ele uma profissão mais conhecida, como pedreiro, carpinteiro, barbeiro, pintor, etc. Refeito, seu ventania nada mais me perguntou e passou a expor suas premonições:

Mô fio, tem um colega que está tentando puxar seu tapete. Ele usa bigode, tem cabelos lisos, pele morena e se diz seu amigo, mas não é. Vou lhe passar essa garrafada pra mô fio tomar sete banhos e se livrar de mau olhado.

Lembro-me que naquele instante fiquei preocupado. O cara, segundo a descrição, parecia comigo. Usava bigode, um pouco moreno cabelos lisos. De fato, lá no IPES, tinha alguém com essas características e se tratava de Antônio Mathias. Só que essa pessoa não era concorrente, não estava estagiando e, portanto jamais poderia ter qualquer interesse em me prejudicar. Não acreditei na conversa de Seu Ventania, não tomei banho algum, fui classificado em primeiro lugar no estágio e de lá sai como presidente do IPES após 25 anos de relevantes serviços prestados àquela instituição.
02.1.2009

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *