O Sequestro da Rosa

Em determinado período do ano faltou água na região; vários meses sem chover. O único poço existente secou. Morreram as plantas; morreram os roseirais. O jardineiro, que todos os dias regava seu jardim, contemplava, desolado, as folhas secas varridas por um vento quente.
Numa certa noite enluarada, quando passava solitário pelo jardim, algo inesperado aconteceu: apareceu uma rosa. Como teria acontecido, se tudo estava tão árido, tão sem vida? O homem dela se aproximou. Estava orvalhada, e suas tênues pétalas balançavam ao sabor de uma suave brisa. Não ousou tocá-la de imediato. Ficou ali parado por algum tempo, tentando ordenar as ideias. Por fim, resolveu deixar a rosa em paz, e foi dormir.
No dia seguinte, ainda não acreditando no que vira, retornou ao jardim. De longe, avistou a pequena rosa. Que belo encontro! Ela se agitava toda; balançava-se sobre o pequeno e delgado caule; suas pétalas se agitavam levemente como que batendo palmas de alegria. O jardineiro não conteve as lágrimas. E aquela gota de orvalho escorrendo dos estames, seria uma lágrima? Não sabia. Sabia que as rosas não falam; sabia que elas exalam perfume… mas… Elas choram?
Passou a dispensar um tratamento especial àquela rosa; conseguiu água e estrume para alimentá-la, e tomou outras providências. Ela logo se fez mais formosa e viçosa, resplandecente e mui perfumada. Agora, os dois são amigos e confidentes. É grande o apego do jardineiro à rosinha. Com ela conversa; sente-lhe o aroma; coloca-a entre as mãos e beija-a docemente. Não chegou a cativá-la totalmente. As rosas são cativas da natureza. Tornou-se escravo dela. Ela o cativou…
Convicto de que as rosas são sensitivas; que as rosas transpiram, nascem, crescem e morrem, o jardineiro sonhador julgava poder ser ouvido por ela. Repetia sempre: “Eu amo a rosa, a bela do jardim; airosa, cheirosa, viçosa, vaidosa, a sorrir pra mim”. E cantarolava velhas canções: “Bate outra vez com esperança o meu coração, pois já vai terminar o verão, em mim; queixo-me às rosas, mas que bobagem, as rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti…”; “Há uma rosa na janela, são meus sonhos pequeninos, se eu fosse um menino eu roubava aquela rosa e a ofertava todo prosa à primeira namorada…”.
Certo dia, porém, o jardineiro chegou ao jardim e não encontrou a amiga rosa. Procurou-a por todos os lados, e nada. A terra estava revirada e havia pegadas pelo chão, indicando que alguém andara por ali. Antes de cair numa tristeza mortal, sentiu ódio. Como pôde deixar-me? Mas as rosas não andam, pensou mais conformado. Deixou-se levar por outro jardineiro invejoso? Talvez. Ela é muito frágil; não poderia resistir. Por que ela não gritou por socorro? Ah! as rosas não falam, lembrou-se.
Depois de andar sem rumo pelo jardim devastado, voltou ao local onde a rosa surgira. Teria sido levada por uma forte ventania? Sequestrada por um beija-flor apaixonado? Não, não existem sequestros de rosas!
Com essas divagações, o homem ajoelhou-se bem próximo ao local da roseira, ali onde vira sua rosa bater palmas de alegria e chorar lágrimas de orvalho. Ajoelhado, os olhos umedecidos, jura não mais cuidar de rosas, não tentar cativá-las, nem se deixar cativar. Ficou algum tempo assim curvado, sentido, ferido na alma. De repente, notou que uma esperança agonizava aos seus pés. Só deu tempo segurá-la entre as mãos… Ela deu o último suspiro. Esperança não suspira, meditou… mas eu senti, eu senti, balbuciou.
Qual a relação existente entre uma esperança morta e uma rosa sequestrada? A esperança morrera de desgosto porque a rosa desapareceu? Antes de prosseguir digo que a esperança era linda, muito linda com seu verde da cor dos mares cearenses, aquele verde de um matiz indecifrável. Seu corpinho jazia sob o luar do sertão!
Ah esperança minha, disse o jardineiro em soluços. Gostaria de estar no seu lugar, nesta hora difícil. As emoções todas findaram para você, mas eu continuarei carregando o fardo da tristeza e da saudade.
Fustigado por uma curiosidade indomável, o jardineiro resolveu abrir com cuidado a cabeça da esperança morta, e teve uma doce surpresa: muitos sonhos começaram a sair, e foram se espalhando pelo jardim. Sonhos coloridos e fantasiosos. Por que as esperanças morrem sem realizar seus sonhos? O meu coração guarda sonhos mil vezes mais coloridos e não morro eu! Morto, poderei descansar tranquilo como esta esperança.
O jardineiro junta um a um os sonhos e os enterra juntamente com a esperança, no mesmo local onde encontrara a rosa pela primeira vez.
Já ia saindo, quando observou que uma saudade não fora sepultada. Voltou, apanhou a saudade, apertou-a junto ao peito, e partiu.

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