As Cruzes e os Lenços Brancos da Paz

Artigo escrito há quase quatro anos. Mudou alguma coisa para melhor? A matança continua a mesma.
Estatística: “40.000 pessoas morrem anualmente com o uso de armas de fogo no país, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Mesmo representando 2,8% da população mundial, o país tem 11% dos homicídios”.

As Cruzes e os Lenços Brancos da Paz

Pr. Airton Evangelista da Costa

“Tudo parecia ir bem! O pessoal resolveu fazer uma passeata pela paz e seguiu pelas ruas da cidade. Mas logo começaram os problemas: alguns manifestantes se desentenderam, discutindo sobre os cartazes utilizados na passeata. Os que carregavam cartazes escritos “Paz para todos” partiram para cima dos que seguravam o cartaz escrito “Paz para os homens de boa vontade” e gritaram que a mensagem era machista, pois excluía as mulheres. O certo, segundo os revoltosos, seria “Paz para todos, homens e mulheres, de boa ou má vontade”. Os pedaços de madeira, que seguravam as faixas, foram usados como armas de ataque e todos se agrediram. De acordo com a polícia, cerca de 25 homens e 43 mulheres foram atendidos no Pronto Socorro, alguns com ferimentos graves”.

A notícia acima nos dá uma idéia de como está difícil a paz. Os homens desejam a paz, mas parecem predispostos à guerra.

Há pouco tempo, 15.000 lenços brancos foram expostos na esplanada dos ministérios, representando os brasileiros assassinados em apenas um ano:
“Acontece hoje [30 de maio/2007] o primeiro protesto do Rio pela Paz fora da cidade do Rio de Janeiro. Foi em Brasília. O Mar de Lágrimas representa os mais de 15 mil assassinatos em todo o território nacional somente este ano. 15.000 lenços brancos foram expostos”.

Não faltam manifestações dessa natureza:

“Desde o início do dia, muitas pessoas transitavam em trajes brancos pelas ruas. No Largo da Carioca, o Mural da Dor, composto por 40 painéis somando 154 metros montado, exibiu fotos de vítimas da violência, desenhos, grafites e mensagens de paz. Uma escultura feita com balas de revólver representava pessoas de joelhos, pedindo paz. À noite, 25 mil pessoas se concentraram no Largo da Carioca. Mil e quinhentas delas chegaram em passeata, que partiu da Central do Brasil com faixas e uma enorme bandeira branca… Cerca de 150 moradores e policiais oraram e pediram paz. Vários prédios da cidade foram iluminados por velas, como o Hotel Copacabana Palace. Houve manifestações também em Niterói, Petrópolis e Volta Redonda” (03.09.2002).

De lá para cá, o massacre continuou. A bandidagem não dá trégua e não estão nem aí para os lenços brancos, cruzes, passeatas e lágrimas. A notícia a seguir é recente:
“A Praia de Boa Viagem, no Recife (PE), amanheceu de luto nesta quarta-feira (6), no dia em que o bairro que dá nome à praia completa 300 anos. Parentes e amigos de pessoas assassinadas fincaram mil cruzes na areia. De janeiro a maio deste ano, 2.097 pessoas foram assassinadas em Pernambuco – são quase 400 crimes por mês. No protesto “Recife pela paz”, pernambucanos pedem providências para combater a violência”.
Cruzes no Rio:
“RIO – Para registrar os 700 assassinatos ocorridos entre 1º de janeiro e 15 de março de 2007 no Rio de Janeiro, o movimento Rio de Paz cravou neste sábado, 17, na areia de Copacabana, em frente ao hotel Copacabana Palace, 700 cruzes”.
Não é por falta de cruzes, lenços, lágrimas e passeatas que a violência deixará de ser combatida. Será por falta de ações governamentais. O povo desarmado não pode enfrentar os bandidos. E não deve. É dever do Estado assegurar os meios para que os cidadãos possam trabalhar com tranqüilidade. A Constituição, já no seu preâmbulo, diz que “um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça…”.
O Brasil de norte a sul está em guerra. Não é assegurado aos brasileiros o direito inalienável de transitar livremente. É notória a falência do Estado no seu dever de garantir segurança física ao povo. As famílias estão em regime de prisão domiciliar. Pequenos comerciantes são obrigados a mudar de ramo, porque não suportam os constantes assaltos, não raro com vítimas fatais.
O Legislativo, perplexo, não sabe o que fazer. Às pressas, acossado pelo clamor das ruas, aprova “pacotes de medidas” que se perdem nos corredores do Senado e da Câmara. Logo mais, candidatos à Presidência da República estarão afirmando alto e bom som que a segurança será prioridade em seu governo. Enquanto isso, os coveiros trabalham a todo vapor para atender a demanda.
O Executivo silencia diante da guerra estabelecida e declarada. As ações eficazes para o combate à violência, se as há, não estão produzindo os efeitos desejados. Então, não são eficazes. O Exército está aquartelado. A sua função constitucional não lhe permite envolver-se em escaramuças intramuros onde morrem “apenas” quinze mil brasileiros/ano. Nenhuma voz se levanta para sugerir uma mudança na Constituição que permita a participação efetiva do Exército no combate à violência em áreas urbanas, mediante acordo com os Estados. Não apenas uma força-tarefa de meia dúzia de soldados, como já existe. Essa tropa seria por prazo indeterminado e em número bastante significativo, com atuação em todas as capitais e incursões pelas cidades interioranas. O trabalho seria em conjunto com as polícias civil e militar. Como solução a curto prazo, o povo se sentiria mais aliviado.
As cruzes, lenços, lágrimas e a morte de milhares de brasileiros ainda não foram suficientes para sensibilizar nossas autoridades. A violência não é um fato isolado. É endêmica. Alastrou-se pelos rincões do solo brasileiro e requer providências enérgicas e urgentes.
www.palavradaverdade.com
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12.06.2007

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