A Inquisição da Igreja Católica

– A Inquisição na Paraíba

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NILMAR FEITOZA GALVÃO

Instituição católica criada na Europa na Baixa Idade Média, com o objetivo de combater heresias e “desvios de Fé”, a Inquisição (Tribunal do Santo Ofício) atuou no Brasil colônia. Na Paraíba sua interferência foi marcante em meados do século XVIII.

O surgimento da Inquisição na Europa medieval está associado, principalmente, a heresia dos Albigenses. Criado com o claro objetivo de submeter à cristandade europeia a ortodoxia da Igreja, com o tempo, principalmente no contexto do fortalecimento das monarquias Ibéricas e do combate ao protestantismo, torna-se um instrumento político e econômico. No entanto, na forma de combater desvios de fé, principalmente, existiram inquisições patrocinadas por adeptos do reformismo (protestantes). A exemplo de “inquisições” evangélicas podemos citar o período da ditadura de João Calvino na Suíça e o fato ocorrido nas colônias inglesas da América (atual EUA) conhecido como “As Bruxas de Salem”.

Grosso modo, o procedimento da Inquisição era dividido em “tempos”: Perdão, delação, interrogatório, julgamento e execução. Ao se instalar em um determinado lugar para verificar os “desvios de fé”, os padres inquisitórios se faziam anunciar, principalmente nas missas e programações católicas do local. Apela-se para a consciência e incultava-se o medo da repressão. Nesse momento, o tempo do perdão, as pessoas deveriam confessar seus desvios e as punições seriam simples. Passava-se para o tempo da delação. Nesse momento os moradores do local denunciavam os supostos pecadores. Os denunciadores não eram conhecidos e, muitas vezes, rixas pessoais, invejas, entre outros “desvios da alma humana”, eram os motivadores dos denunciantes. Após esse momento o interrogatório era iniciado. Nessa fase diversos horrores foram cometidos em nome de Deus, principalmente, a tortura. Procedimentos concluídos o “culpado” era submetido ao julgamento o qual, muitas vezes era finalizado com a pena capital: a morte.

Na Paraíba, segundo José Otávio, o procedimento da Inquisição foi um fator de atraso para essa capitania. Contando com uma população total de 52.000 habitantes, tornou-se uma presa tentadora para o Tribunal do Santo Ofício. De acordo com esse historiador paraibano, depois do Rio de Janeiro, a Paraíba foi à capitania mais perseguida no Brasil colônia. O procedimento do Tribunal do Santo ofício se tornou um dos fatores de contribuição para a pobreza “medular” da Paraíba, na medida em que sua atuação significava, ainda mais, transferência de riquezas para a metrópole, no caso, Portugal, sendo mais um dos instrumentos do “Pacto Colonial”.

Seria um fator de atraso e empobrecimento da Paraíba a atuação da Inquisição, pois se transferiam recursos para a metrópole na medida em que os atingidos tinham seus bens confiscados e transferidos para o patrimônio da Coroa. Os processos inquisitórios eram secretos, propiciando delações de todo tipo, criando um clima de insegurança que era ruim para os negócios. Além do mais, a desconfiança contra aqueles que detinham fortunas e faziam empréstimos a juros, não ajudava no desenvolvimento do comércio. Outro fator seria a “imposição” de doações para a construção ou conclusão de igrejas (São Bento, São Francisco e Carmo na capital, foram concluídas e restauradas entre 1761 e 1779), transferindo-se recursos que poderiam ser aplicados no setor produtivo. Contando ainda que a capitania da Paraíba, sob pressão da inquisição, foi obrigada a contribuir com o dote de casamento dos filhos de D. João V.

Na Paraíba, os perseguidos pela atuação da Inquisição foram principalmente: negociantes, mercadores, médios proprietários. Esses eram acusados, na maioria dos casos, a práticas “judaizantes”. Mais de 40 pessoas foram condenadas a prisão perpetua e duas foram queimadas em Lisboa.

No caso dos perseguidos na Paraíba, dois casos são emblemáticos: Branca Dias e Gabriel Malagrida. O primeiro caso, Banca Dias, é alvo de uma controvérsia histórica. O historiador José Otávio sustenta que apesar de existir essa mulher acusada de práticas judaizantes (ou melhor, era judia), não viveu na Paraíba e sim em Pernambuco.  O caso do padre jesuíta italiano Gabriel Malagrida teve um fim trágico: foi garroteado e queimado vivo em Portugal. Esse padre atuava em várias capitanias (Maranhão, Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco), praticando obras de caridade e assistência social (ajudou a edificar escolas, orfanatos, asilos, igrejas). A sua morte está inserida no contexto da disputa entre o Marquês de Pombal e os jesuítas. Dessa disputa resultou a expulsão dos jesuítas dos domínios de Portugal.

Fugitivo, o povo judeu se fixou e prosperou na Paraíba e em PE

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  •  Fonte: Jornal da Paraíba SUETONI SOUTO MAIOR

A intolerância religiosa, agravada pela união dos reis Fernando e Isabel e pelo poder arrasador da Inquisição, fez com que os judeus sefaraditas migrassem da Espanha para Portugal em 1492. Na nova terra, a paz durou cinco anos, quando a Igreja de Roma passou a persegui-los. A partir daí, segundo Davi André, a descoberta das Américas surgiu como “um novo Mar-Vermelho”, que se abria para o povo judeu.
    O historiador José Octávio de Arruda Mello explica que o Brasil, nesse contexto, surgiu como uma porta para que os judeus pudessem fugir da perseguição. “Eles se fixaram e prosperaram principalmente na Paraíba, Pernambuco e Bahia”, explicou, lembrando que o judeu representou a primeira contribuição branca para a formação da etnia brasileira, comumente lembrada como a mistura de brancos, negros e índios.
De acordo com pesquisa realizada por André, em 1915 o rei de Portugal, dom Manoel, degredou para o Brasil 30 mil judeus. Eles eram batizados, em pé, antes de entrar no navio e mandados para o Nordeste. Vale ressaltar que não apenas degredados seguiam o caminho das Américas. Judeus ricos e influentes, recém-transformados em cristãos novos, viam no Brasil uma nova versão da ‘terra prometida’.
Entre eles estava Fernando de Noronha, o primeiro donatário de Pernambuco, e Duarte Coelho, responsável pela introdução da cana-de-açúcar no Estado vizinho. A atividade que logo se espalhou para a Paraíba, colocando os judeus em posição de destaque entre os donos de engenho da região. “Eles se casavam com as índias, pois era mais fácil ensinar a doutrina judaica a elas, que converter as portuguesas”, disse André.
A prosperidade judaica foi ampliada com o domínio holandês, entre 1645 a 1654, quando, por influência do conde Maurício de Nassau, houve liberdade de credo na província. Nessa época, vêm para o Estado também judeus alemães e holandeses, que se fixaram principalmente em Pernambuco, onde há a sinagoga mais antiga das Américas. Com a expulsão dos holandeses, volta a perseguição religiosa.

  • Estado foi alvo de expedições inquisitórias

A distância de Pernambuco, para os padrões da época, fez com que os judeus perseguidos no Estado vizinho migrassem para a Paraíba, onde se fixaram com grandes engenhos e atividade comercial. De acordo com André Davi, não demorou muito para a província ganhar o apelido de ‘Terra de Judeus’. A partir daí, o Estado foi alvo de três grandes expedições inquisitórias.
A principal delas ocorreu em 1801, quando a população de João Pessoa foi reduzida de 55 mil habitantes, para apenas 38 mil. “Estima-se que pelo menos 3 mil pessoas foram julgadas e mortas em processos que, por ordem da Inquisição, não foram registrados, para que não houvesse provas”, disse o pastor André, garantindo que isso fez com que o povo migrasse para o interior da Paraíba.
A perseguição fez também surgirem muitas lendas, que acabaram sendo assimiladas pela população. Um exemplo é o da judia Branca Dias que teria sido queimada na fogueira, em Portugal, por ter “seduzido” um padre. De acordo com José Octávio, ela existiu, sim, mas era proprietária do Engenho Camaragibe, em Pernambuco, e não na Paraíba.

“Os relatos históricos comprovam que ela não viveu na Paraíba, nem foi queimada em fogueira alguma em Portugal. Ela foi condenada post mort (após a morte) pela Inquisição”, disse José Octávio, enfatizando que, naquela época, o processo era aberto e, mesmo que a pessoa morresse, teria continuidade. A perseguição fez com que muitos dos judeus abandonassem os ensinamentos judaicos, para fugir da fogueira. André explica que os processos eram abertos aqui na Paraíba, mas a maioria dos judeus era queimada na fogueira em Portugal. Aqui, as mortes ocorriam em frente à Igreja de São Francisco. Para se converter, era preciso mudar de sobrenome (limpeza de sangue), fazer penitência e freqüentar a missa todos os domingos até o fim da vida. As mulheres tinham ainda que usar um véu para cobrir a cabeça. “Quando o judeu era posto na fogueira, o padre se aproximava dele e o benzia. Se o condenado beijasse o crucifixo nas mãos do religioso, ele seria agraciado com a opção de ser estrangulado antes de as chamas serem acesas”, disse Davi André, ressaltando que os filhos eram confinados em conventos ou tinham a cabeça esmagada. (SSM)

Perseguição fez os judeus buscarem locais afastados

As perseguições ao povo judeu fizeram com que eles se embrenhassem rumo ao interior, buscando os locais mais afastados para criar a família e, principalmente, escapar da morte. “Era a busca por um lugar longe das perseguições”, explicou o historiador José Octávio, lembrando que eles acabaram, com isso, influenciando em muitas das tradições hoje existentes na Paraíba. O pastor judeu Davi André explica essas tradições citando costumes tidos como familiares, a exemplo de varrer a casa sempre da sala para a cozinha, não misturar carne com leite, evitar a carne de porco, além de uma série de palavras assimiladas pelo paraibano. Podem ser citados os exemplos de jabá (vem de shabá, que quer dizer sábado), Seridó e Acauâ (akauâ) e zona (prostituta).
Davi explicou que há vários sobrenomes na Paraíba de origem hebraica, a exemplo de Barbosa (filho cercado por bodes), Gadelha (vem de Gedolah, que significa grande), Brito (aliança), Guimarães (interpretação bíblica), Menezes (Menache), Amorim (explicadores) e Arruda (Judá), além de outros sobrenomes existentes no Estado.
As tradições também foram notadas na arquitetura. De acordo com José Octávio, João Pessoa já teve uma sinagoga, porém o local exato só poderá ser encontrado se houver um trabalho arqueológico voltado para isso. Algumas casas no interior também ostentam símbolos judaicos. “Tem uma casa em Galante, com mais de 200 anos, que pertenceu a um primo-avô meu que tem uma estrela de Davi na fachada”, disse André.
A perseguição implacável da Igreja Católica, no entanto, fez com que boa parte dos símbolos fosse abandonada. “Houve uma sucessão de perseguições aos judeus na Paraíba. Saindo da inquisição, chega-se ao anti-semitismo, que predominou até meados do século passado”, disse José Octávio lembrando frase do padre Hildon Bandeira, alertando a população para uma suposta “conspiração judaicomacônicabolchevique”.
“Tudo isso se lia muito no jornal A Imprensa, que sofria forte influência da Igreja Católica, principalmente no governo de Argemiro de Figueiredo (1935-1940). Nessa época foram registradas várias perseguições”, disse o historiador, lembrando que quando Rui Carneiro assumiu o governo em 1942 fechou A Imprensa e recebeu membros da comunidade judaica pessoense, que agradeceram a proteção. “Se agradeceram a proteção era por que eram perseguidos”, ressaltou José Octávio. (SSM)

  • Única sinagoga paraibana fica em Campina Grande

Atualmente, a população que professa a fé judaica, na Paraíba, não passa de 500 pessoas e a única sinagoga existente fica na cidade de Campina Grande. Ela é freqüentada por um grupo composto por aproximadamente 60 pessoas, que mantêm vivas as tradições e fé judaicas. É a congregação Beit Teshuva (Casa de Retorno), que prega o judaísmo messiânico. Ou seja, crêem em Jesus Cristo como o Messias.
De acordo com Davi André, fundador da congregação, o caminho para que uma pessoa possa se tornar judia não é fácil. Não basta, para isso, apenas querer. “Ele terá que comprovar a descendência judaica e, para isso, precisará fazer uma árvore genealógica da família”, disse, lembrando que as exigências incluem ainda instrução da Tora (pentateuco), aulas de hebraico e seminário teológico. Um estudo mínimo de dois anos.
Tudo isso, no entanto, não quer dizer que o judeu convertido conquistará cidadania israelense. “Por questões de segurança do país, a cidadania é uma coisa complicada de se conseguir”, disse Davi. Para pesquisar a família, o primeiro passo é consultar os registros dos cartórios. Além deles, uma série de portais trazem orientações sobre onde consultar registros de famílias judaicas brasileiras. ·.

CURIOSIDADE
O pastor judeu Davi André lembrou também que há estudos arqueológicos que comprovariam que a ligação da Paraíba com o povo judeu pode ser bem anterior até que o descobrimento. Uma das provas disso seriam as itacoatiaras da Pedra de Ingá. A pedra, segundo ele, ostenta uma memorá, que é um candelabro judeu. “Há estudos que comprovam que os escritos contam a história do Dilúvio”, disse.
Isso seria possível, segundo ele, graças a visitas que teriam sido feitas por navegadores fenícios e judeus à Paraíba por volta de 1100 antes de Cristo. “Isso é relatado no livro ‘A história secreta do Brasil’, escrito pelo português Victor Manuel Adrião”, ressaltou, citando ainda o escritor italiano Diodoro da Sicília, que morreu em 21 antes de Cristo. A obra relata a viagem de fenícios e judeus possivelmente à área compreendida entre o México e o Amazonas.
“Entre as provas existentes para isso estão os escritos hebraicos existentes na Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro, um barco fenício encontrado na América Central e muitas palavras existentes no tupi, falado pelos índios pré-colombianos”, disse Davi, citando entre elas a palavra Paraíba, que em hebraico quer dizer “a vaca vem”. (SSM)

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