A Carta

Querida,

Inicialmente, desculpe-me pelo romantismo até certo ponto exagerado. Cassado que fui na comunicação telefônica, restou-me falar-lhe pelo pensamento, onde a encontro todas as horas. E nas canções, onde você está. Digo-lhe isto porque senti frieza na sua última fala ao telefone.

O presente que acompanha esta carta é um presente de um cavalheiro para uma dama, de um amigo para uma amiga. Nada mais. Não tem a intenção de comprar o seu coração. Uma pessoa inteligente, amadurecida e equilibrada como você, não se deixa enganar com agrados dessa natureza. Então, aceite-o; é de coração.

Disse-lhe que costumava falar direto, sem rodeios: a verdade é que ainda não consegui esquecer você. Talvez você mesma me ensine a fazê-lo. E rapidamente. Nossos beijos calaram muito em minh’alma. Um pouco de você ficou dentro de mim.

Como esquecer tão depressa? Uma amizade não se constrói em pouco tempo. Amigo é como um brilhante: para sempre. Hoje em dia os amigos são difíceis. Como amigo, desejo-lhe prosperidade em sua vida profissional e particular. Quero vê-la feliz. Não gostaria que você se pensasse diferente.

Em síntese, procurei cativá-la e fui cativado. “Tudo era apenas uma brincadeira e foi crescendo, crescendo, me absorvendo; e de repente eu me vi assim completamente seu”.

Nossa amizade foi construída de pequenos momentos: um olhar, uma fala, uma conversa, pequenas estórias, pequenas e inconfessáveis confidências. Não a construímos à beira da praia para ser arrastada pelas ondas revoltas ou pelo vento impetuoso.

Esta cartinha é um retrato três por quatro de tudo quanto gostaria de lhe dizer pessoalmente; dos meus desejos e emoções. Após lê-la, rasgue-a, se julgar conveniente. Talvez você não queira guardar qualquer lembrança do que passou. Poderá lê-la no ônibus, a caminho de sua casa. Depois, rasgue-a em pedacinhos e solte-os aos poucos pela janela: um pouco aqui, outro ali… e veja o vento, meu amigo, levar para o alto minhas palavras e sentimentos. E veja, pela imaginação da poesia, esses pedacinhos se transformando em borboletas multicoloridas. E serão centenas delas circundando o ônibus… e entrarão pela janela, e beijarão sua face, e pousarão em seus cabelos, e dançarão diante de seus olhos risonhos…

E, já noitinha, quando você olhar pela janela de seu quarto, preparando-se para dormir, lá estarão elas, as borboletas, carregando o meu amor em suas asas. Depois, tomarão o rumo das estrelas.

Aceite o presente que lhe envio. Do contrário, sugiro derramá-lo no mar… e verá como as águas ficarão perfumadas. Se arrepender-se, não adianta clamar: Ó MAR, DEVOLVA-ME O PRESENTE DO MEU AMOR. Será tarde. Se continuar gritando, estará chamando por mim. E o mar, que integra meu nome, ainda assim não lhe dará atenção.

Eu e o mar só lhe responderemos se chamar AMOR, o amor que está NO MAR, está em OMAR, e está em mim.

OMAR

(Obs.: Essa carta existiu. A partir daí os caminhos estavam abertos para mim e para Jasmina, minha esposa).

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