O Enigma

O Enigma
Pr. Airton Evangelista da Costa

CHEGA A SER mais enigmático do que o sorriso de Mona Lisa, imortalizado pelo pintor italiano Leonardo da Vinci.
Costumo me despedir dos meus interlocutores com um “Deus te abençoe”. Muitos perguntarão: – “Qual o problema?”. Realmente, não deveria haver nenhum problema, eis que, se Deus nos abençoar por toda a nossa vida; se todos os nossos bons desejos forem satisfeitos por Deus, enfrentaremos menos dificuldades.
O problema está em que muitos interlocutores – cristãos nominais, ateus, agnósticos e outros – não dão boa receptividade à minha breve oração. A maioria não responde, não agradece, não retribui. Ficam mudos e não raro perplexos.
Como sei? Pela leitura da alma e pelo sorriso deles. Alguns recebem como a mais nova piada de papagaio. Outros fecham o cenho, comprimem as sobrancelhas, demonstram espanto num esforço para compreender.
Eu seria muito mais compreendido se lhes dissesse: “Olá, bicho!”. Mas a minha palavra foge ao padrão. Não está no script das novelas. Daí porque não conseguem decodificar o hieróglifo.
Continuo na tentativa de decifrar o enigma. Por que a reação? Rogar a Deus que abençoe uma pessoa é algo de outro mundo? Na verdade, não se trata de uma prática do mundo das trevas. Daí o confronto e a perplexidade. Ouso dizer que alguns recebem o “Deus te abençoe” como uma ironia, uma crítica, uma “coisa”. Como algo incompreensível, misterioso, inusitado, inesperado, confuso. Ficam sem saber o que responder diante daquela “pancada”.
Na tentativa de decifrar o fenômeno, concentro-me no exame do sorriso, às vezes da gargalhada. Reconheço que alguns tentam dissimular; fingem que nada ouviram; viram o rosto; mudam rapidamente de conversa; saem apressados. Na verdade, não recebem de bom grado minha oração. Ou ficam numa situação neutra, mais ou menos assim: minhas palavras nem fedem nem cheiram, nem agradam nem desagradam.
Agem mais ou menos como aquele rapaz de uma lan house, quando voltei meia hora depois para informar que ele errara nos cálculos. Eu deveria pagar muito mais. Olhou-me da cabeça aos pés, talvez na tentativa de descobrir de qual planeta eu era. Por pouco não me tocou com as mãos para cientificar-se que eu era de carne e osso.
03.10.2010

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