Inquisição – Depoimento de Galileu no Tribunal

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Fonte: PAGANI, Sérgio M.; LUCIANI, Antônio (Org.). Os documentos do processo de Galileu Galilei. Petró
Extraído de Almanaque Abril 99.

Inquisição, depoimento de Galileu Galilei no Tribunal

“Terça-feira, 21 de junho de 1633.
Sendo convocado, Galileu Galilei apresentou-se pessoalmente na aula das reuniões do Palácio do Santo Ofício em Roma, diante do mui reverendo Padre Comissário geral do Santo Ofício, do assistente reverendo Senhor Procurador fiscal, e na minha presença etc.
O mesmo Galileu, florentino, acima referido, após prestar juramento de dizer a verdade, de mão sobre etc., foi pelos Senhores
Int. Se tem algo a dizer de espontânea vontade.

R. Eu não tenho nada a dizer.

Int. Se sustenta ou sustentou, e desde quanto tempo, que o sol é o centro do mundo, e que a terra não é o centro do mundo e se move inclusive com movimento diurno.

R. Já faz muito tempo, isto é, antes da determinação da Sagrada Congregação do Índice e antes mesmo que me fosse dado aquele preceito, eu estava indiferente e considerava as duas opiniões, ou seja, de Ptolomeu e de Copérnico, como disputáveis, pois tanto uma como a outra podia ser verdadeira na natureza. Mas depois da determinação acima referida, garantido pela prudência dos superiores, cessou em mim toda ambigüidade e sustentei, assim como ainda sustento, como absolutamente verdadeira e insofismável a opinião de Ptolomeu, ou seja, a estabilidade da terra e a mobilidade do sol.

Eles, porém, lhe disseram que, pela maneira e vezes com que dita opinião é tratada e defendida por ele no livro que mandou imprimir depois do tempo referido e sobretudo pelo fato de ter escrito o dito livro e mandado imprimir, se presume que ele sustentou a referida opinião depois do tempo mencionado; portanto diga espontaneamente a verdade, se a sustenta ou sustentou.

R. Quanto ao fato de ter escrito o Diálogo já publicado, não me determinei a fazê-lo por considerar verdadeira a opinião copernicana; mas visando somente contribuir para o bem comum, procurei explicar as razões naturais e astronômicas que podem ser apresentadas tanto por uma como também pela outra parte, esmerando-me em tornar manifesto como nem estas nem aquelas, nem por esta opinião nem por aquela, tais razões tivessem força para resolver a questão de forma demonstrativa, e que por isso para proceder com segurança fosse necessário recorrer à determinação de doutrinas mais sublimes, assim como aparece em muitos e muitos lugares do mesmo Diálogo. Concluo, portanto, dentro de mim mesmo, não sustentar nem ter sustentado depois da determinação dos superiores a opinião condenada.

E tendo-lhe dito que, em virtude do mesmo livro e das razões aduzidas para a parte afirmativa, ou seja, que a terra se move e o sol está imóvel, se presume, como foi dito, que ele sustenta a opinião de Copérnico ou pelo menos que a sustentou anteriormente etc., portanto, se não se resolver a dizer a verdade, serão aplicados contra ele os remédios oportunos de direito e de fato.

R. Eu não sustento nem sustentei essa opinião de Copérnico depois que me foi intimado por preceito que eu devia deixá-la; de resto, estou aqui em suas mãos, façam o que lhes aprouver.

Depois disso lhe reiteraram que dissesse a verdade, caso contrário se passaria à tortura.

R. Estou aqui para fazer a obediência; e não sustentei tal opinião após estabelecida aquela determinação, como disse.

E não havendo mais nada a elucidar quanto a execução do decreto, após obter a sua assinatura, foi reenviado ao seu aposento.
Eu Galileu Galilei tenho deposto como acima.”

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