CRÔNICAVÍRUS – Sinto saudade

   Do tempo – e não faz muito tempo – em que saíamos eu e minha amada pelas ruas do meu bairro, na bela e ensolarada Fortaleza, esticando as pernas, a visitar uma ou outra loja, fazer algumas compras. Sinto saudade.

Do sorriso largo e prestimoso dos atendentes, convidando-nos a entrar. Por que não estão mais sorrindo? Porque nossos sorrisos foram confiscados, subtraídos, roubados. Em seu lugar, nos empurraram uma máscara que cobre oitenta por cento do rosto.  O convite de praxe “Vamos entrar?”, “Em que posso servir?” torna-se quase inaudível. Em algumas lojas, somos convidados a ficar do lado de fora, ao sol e à chuva, esperando a vez de sermos atendidos, para evitar aglomerações. Desse tempo sinto saudade.

Tempos novos. Estamos confinados em prisão domiciliar e proibidos de caminhar livremente pelas ruas. Não exercemos plenamente nossos direitos de cidadãos. Nossa liberdade está restrita. Permitem-nos sair da prisão para recebermos atendimento médico ou comprar alimentos. Só. Mas tudo isso, dizem, é para o nosso próprio bem. Além desse confisco e confinamento, conseguiram introduzir o pânico em nossa alma. Por ano, o trânsito continua fazendo 50.000 vítimas, e os bandidos continuam matando outros 50.000.  Essa matança, em número muito superior às vítimas do coronavírus, não foi o suficiente para adoção de medidas drásticas. Há muito anos, tudo continua como dantes no quartel d´Abrantes.

Do tempo da minha liberdade sinto saudade.

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