CRÔNICAVÍRUS – Sinto inveja

    

    Da liberdade que eles têm de ir e vir sem temor nem tremor, sinto inveja. Nada neste mundo os impede de exercer essa liberdade na sua plenitude.

Chegam de mansinho para matar a sede no bebedouro que coloquei na minha janela. São os “sibites”, os pássaros que me visitam todos os dias. Não demoram mais do que trinta segundos. Para fotografá-los, fico imóvel como uma estátua. Com certeza, macho e fêmea voam juntos. Pousam em qualquer telhado, em qualquer árvore. Tão pequenos e tão fortes. Amo-os de verdade.

E nós, que cumprimos resignados uma quarenta por tempo indeterminado? Que trememos diante de um vírus mil vezes menor do que uma pulga? Que não temos liberdade de caminhar nos parques, apertar as mãos dos amigos, conversar nos bancos das praças, visitar um shopping ou ir à praia? Que, sob ameaça de prisão e multa, somos obrigados a usar máscaras e manter a distância de dois metros entre as pessoas? Que, no caso de morte, o velório deve ser sumaríssimo ou até inexistente? Que, se quisermos sair de casa, em caso de emergência, somos obrigados a apresentar justificativa bastante convincente à autoridade policial?

Por isso, quando repentinamente chegam à minha janela; quando eles batem asas e somem, somem sem pedir licença, sem avisar, fico a meditar no valor da liberdade. Esta é a lição que me ensinam. A imagem deles, sempre alegres e saltitantes, ficará gravada nas minhas retinas por muitos e muitos anos.

 

 

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