CRÔNICAVÍRUS – Os idosos

        

Eu estava na janela do meu AP, no quinto andar, tomando um sol, e bem defronte, também no quinto andar, estava um homem mais ou menos da minha idade. Muito calmo, olhar distante, sem camisa, bermudão. Vi logo que era um parceiro de infortúnio. Pensei num meio de comunicar-me com ele. Uns trinta metros nos separava. Não dava para gritar. Pensei: farei sinais com as mãos.

Para início, com mão direita fiz o sinal de “positivo”, colocando o polegar para cima. Ele entendeu e retribuiu. Estava estabelecida nossa conversa. Uma coisa gostaria de dizer-lhe, mas seria difícil através de gestos: Estamos em prisão domiciliar, por tempo indeterminado,, chamado de quarentena, pagando por um crime que não cometemos.

Resolvi fazer um sinal que resumisse tudo isso. Coloquei o polegar para baixo, baixando e levantando a mão por algumas vezes. Parece que meu companheiro não entendeu. Olhou para baixo, para a rua, olhou para mim, abriu os braços, como se dissesse “Não entendi”. Então fiz um gesto com a mão aberta, pedindo para que ele esperasse. Fui até a cozinha e peguei um saleiro. Apertei o saleiro na mão esquerda e com a mão direita aberta bati várias vezes no fundo do saleiro, como se desejasse extrair um pouco de sal, querendo dizer: Olha aqui! “Nós estamos lascados”! Valeu. Ele sorriu, e repetiu o gesto. Levantou as mãos para o alto como se quisesse dizer: Só Deus pode nos livrar, ao que respondi balançando a cabeça afirmativamente.

Perguntei-lhe se não iria sair para caminhar no parque. Como fazer? Com os dedos indicador e médio, mexendo-os para trás e para frente, e apontando para a rua, percorri toda a extensão da janela. Ele entendeu. Com o indicador em riste, balançou a mão várias vezes. Ou seja, respondeu com um sonoro NÃO. Com os dois indicadores apontando para baixo, pediu-me que olhasse. Apressado, fechou a janela e sumiu. Olhei. Acabava de chegar uma viatura da Polícia, onde estava escrito: CATA VELHO.

 PS – Trata-se de uma obra de ficção com pinceladas de realidade e bom humor. Objetiva descrever as dificuldades por que passamos neste período de pandemia do coronavírus.

 

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