Alcoolismo

Alcoolismo
28 de maio de 1997

Revista VEJA
O que dizia a reportagem de VEJA

Cerca de 85% dos médicos americanos consideram o alcoolismo uma doença, no sentido de ser um distúrbio involuntário. É o conceito amplamente aceito, também, pela psiquiatria, pelas clínicas de tratamento e pelos Alcoólicos Anônimos. Há quem prefira o termo transtorno mental decorrente do abuso de álcool. A Organização Mundial de Saúde (OMS) classifica a doença do alcoolismo como síndrome, de causas múltiplas. E, fora do âmbito da ciência, o termo mais usado é ainda o que mais fere e humilha o alcoólatra — vício. Em oposição à virtude, sua forte conotação moral é demolidora e encontra eco na medicina. Nada, nos 6.000 anos de convivência da humanidade com a bebida alcoólica, é óbvio e simples. Definir o exato momento em que o abuso de álcool merece ser catalogado como alcoolismo é tão difícil quanto cravar o ponto exato em que a cor amarela se transforma em verde. O bebedor normal, social ou moderado, é aquele que bebe menos do que o necessário para ter problemas médicos, sociais ou psicológicos. No Brasil, 82% da população adulta se enquadra nessa faixa. Em consumo per capita, o Brasil ostenta uma sobriedade surpreendente: 50 litros de cerveja por ano, em 1996, contra 90 litros nos EUA e a enxurrada de 170 litros por ano por habitante checo. Já no ramo dos destilados, os dados são mais suspeitos. Segundo as estatísticas, o Brasil estaria num bem-comportado 28º lugar — mas nessa conta não está computada toda a produção clandestina de cachaça, em alambiques de fundo de quintal. Apenas 5% dos adolescentes brasileiros acreditam que o álcool seja uma droga.

O que aconteceu depois

Nos anos seguintes à publicação da reportagem de VEJA, vários estudos revelaram informações preocupantes a respeito do impacto do consumo de bebidas alcoólicas no Brasil. Os pesquisadores concluíram que os problemas com álcool cresceram tanto entre os adultos como entre jovens — e que as conseqüências do consumo excessivo de bebidas são cada vez mais preocupantes. Em 1998, uma pesquisa feita por especialistas da USP e do IML mostrou que, entre 5.700 pessoas que morreram de causas não naturais na Grande São Paulo, 48% estavam sob o efeito do álcool. É fácil supor que tal panorama se repita em outras grandes regiões metropolitanas do país. No ano seguinte, cidades como Curitiba e São Paulo elegeram o álcool inimigo público número 1 na luta contra a criminalidade, lançando planos para reduzir o consumo de bebida em situações de risco. Curitiba deflagrou uma operação para fechar bares que trabalham sem licença. A cidade teve 58 mortes na região metropolitana em 3 meses — alta de 38% em relação ao mesmo período do ano anterior. Quase um quarto dos assassinatos ocorreu dentro de botecos da periferia ou nas proximidades. Em Belém, para conter arruaças promovidas por gangues de adolescentes, a polícia obrigou os bares a funcionar somente até a meia-noite nos finais de semana. A restrição foi derrubada na Justiça, mas as autoridades continuaram fechando ou impondo sanções a estabelecimentos em situação irregular. Como resultado, os casos de desordem nas ruas foram reduzidos a um terço e os homicídios caíram à metade. Na época, estimava-se que 30% dos crimes no Brasil fossem cometidos sob influência da bebida.

Uma pesquisa de 2002 mostrou outro dado preocupante sobre o consumo do álcool no país — a tendência crescente de envolvimento das mulheres jovens nos porres que costumavam ser exclusivos dos rapazes. Até o início dos anos 90, de cada cinco jovens que procuravam ajuda médica devido a problemas de alcoolismo, apenas um era do sexo feminino. Dez anos depois, a média era de dois rapazes para uma garota. Estudo da Unesp mostrou que, entre os calouros de universidades, as meninas não só bebiam em quantidade semelhante à dos rapazes como também se envolviam quase na mesma proporção em acidentes de carro quando embriagadas. A bebedeira seria o sintoma de uma mudança maior no comportamento das adolescentes. Desde os anos 90, elas ganharam maior liberdade para freqüentar festas e danceterias. E acabaram adquirindo alguns dos maus hábitos masculinos. Cinco anos depois, em maio de 2007, o governo federal divulgou os resultados de seu primeiro levantamento de vigilância de fatores de risco à saúde, o Vigitel. Descobriu-se que um quarto dos homens adultos das capitais do país consome bebida alcoólica em excesso. Entre as mulheres, a proporção era menor: 8%. O abuso no consumo de álcool era maior entre os brasileiros com idades entre 25 e 34 anos — o que cria a perspectiva de um futuro com grande número de brasileiros adultos, com idade para trabalhar, sob risco de sofrer de alcoolismo. As capitais com maiores porcentuais de consumo de álcool em excesso eram Salvador, Recife e Teresina. Os menores índices estavam em Boa Vista, Curitiba e São Paulo. Entre todos os menores de idade, 16% confessaram abusar da bebida.

O problema dos jovens com o álcool e a possibilidade de um crescimento perigoso no número de alcoólatras no país foram reforçados com a divulgação de outro estudo no ano de 2007. O levantamento, da Unifesp, mostra que os jovens brasileiros estão bebendo cada vez mais cedo. Os adultos com idades entre 18 e 25 anos começaram a beber com 15 anos e três meses, em média. Já os adolescentes com idades entre 14 e 17 anos dizem ter começado a beber aos 13 anos e nove meses, em média. Essa pesquisa da Unifesp revelou ainda que o consumo de álcool de forma regular começa com 14 anos e seis meses entre os adolescentes de hoje no país. Os jovens adultos da atualidade começaram muito depois, aos 17 anos e três meses. Um contingente de 16% dos adolescentes diz beber em excesso. Na época da divulgação do estudo, o governo federal prometia emplacar uma nova legislação restringindo a propaganda de cerveja, bebida alcoólica mais consumida pelos brasileiros. A pesquisa da Unifesp diz que a cerveja corresponde a 61% de todas as doses de álcool consumidas no país. A preocupação com o alcoolismo era compartilhada pelos governos dos outros países. No início da década, a OMS, assustada com os níveis crescentes de consumo de álcool, começou a traçar estratégias internacionais para combater o abuso da bebida, particularmente entre os jovens. Na Europa, ministros da Saúde de vários países lançaram uma declaração conjunta em uma conferência sobre o tema em Estocolmo, na Suécia, visando à redução dos efeitos nefastos do alcoolismo, que, de acordo com a OMS, tem alto custo para a saúde pública.

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