A Igreja Vitoriosa

Texto: João 10.1-21

Tema: Uma Igreja Vitoriosa

Introdução

Este é um dos textos mais conhecidos que temos na Bíblia. Contudo, é muitas vezes mal interpretado. Muitas vezes olhamos o texto fora do seu contexto. Queremos ter uma aplicação imediata para a nossa vida e nos esquecemos que o texto foi dirigido primeiramente para um determinado grupo de pessoas. Todos concordamos que Jesus é o Bom Pastor. A questão é porque Ele fez esta declaração?

Este texto está interligado com o capítulo anterior que fala da cura de um cego. A ideia é que este ex-cego faz parte do rebanho do Senhor. Não somente isto, o Senhor mostra que os líderes religiosos de Israel que deveriam cuidar do povo não o estavam a fazer. Um exemplo deste facto é o cego que foi desprezado. “O homem curado de sua cegueira esperou em vão o cuidado que pastores deveriam lhe dar; na verdade eles o expulsaram do rebanho pelo qual eram responsáveis. Porém, depois disto, ele encontrou em Jesus um pastor de verdade.”[1]

É por este motivo que o Senhor cria este cenário onde apresenta o bom pastor entre os ladrões e salteadores, pastores falsos que invadem o rebanho para tentar conseguir para si algumas ovelhas. O pano de fundo deste texto encontra-se em Ezequiel 34 e Zacarias 11.27, onde o profeta fala o seguinte sobre os pastores: “Ai do pastor inútil, que abandona o rebanho! a espada lhe cairá sobre o braço e sobre o olho direito; o seu braço será de todo mirrado, e o seu olho direito será inteiramente escurecido.” Jesus censura os falsos pastores e apresenta-se como o verdadeiro pastor.

Não podemos esquecer esta realidade quando meditamos neste texto. Contudo, quando olhamos para esta alegoria notamos claramente três quadros que se relacionam entre si. Podemos dizer o seguinte sobre estas cenas: “a primeira cena pode se dar de manhã, quando as ovelhas são levadas para fora do aprisco pelo pastor; a segunda, decorre ao meio dia, quando as ovelhas têm liberdade de procurar abrigo no aprisco, ou de ficar pastando, para satisfação da fome; a terceira, representa o anoitecer, quando os rebanhos, de volta, podem correr o risco de ser atacados por lobos. A primeira é um contraste entre a tirania ilícita dos fariseus e a missão divina de Cristo; na segunda, as influências malfazejas do poder dos fariseus vêm contrapor-se à dádiva que Cristo faz de vida satisfatória e abundante; na terceira cena temos em oposição os motivos cruéis e covardes daqueles fariseus e o amor de Cristo que se dá em sacrifício.”[2]

Temos uma visão panorâmica do texto. Agora permitam-me que faça uma aplicação deste texto à vida da igreja. Olhemos para o mesmo, na perspectiva da ovelha, que é o povo de Deus. Somos nós sua igreja, e de modo muito particular, hoje a igreja em Sete Rios. Sendo assim, vejamos como aplicar este texto às nossas vidas na perspectiva da ovelha, para que possamos ser uma igreja vitoriosa.

1 – A igreja vitoriosa é aquela que não se deixa enganar com falsos ensinos e mestres 1-6

Jesus está a criticar os líderes religiosos dos seus dias. A chave para compreendermos estes versículos é a palavra porta. Jesus é a porta. Quem não entra por Ele é um salteador. Aqueles líderes estavam sempre a lutar e a opor-se ao ensino do Senhor. Entretanto o próprio Senhor lhes disse: “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna; e são elas que dão testemunho de mim.” (Jo 5.39). Eis aqui a chave da igreja vitoriosa, ela examina as escrituras e encontra nelas o testemunho do Senhor. Ela fundamenta-se no ensino do Senhor. A igreja precisa ter discernimento para ver o que está a ser ensinado. Ela precisa analisar à luz das Escrituras para ver se o que está a ser ministrado é realmente Palavra de Deus. A igreja vitoriosa segue o exemplo dos de Beréia. Lucas exaltou aqueles irmãos e disse o seguinte deles: “Ora, estes eram mais nobres do que os de Tessalônica, porque receberam a palavra com toda avidez, examinando diariamente as Escrituras para ver se estas coisas eram assim.” (Lc 17.11). Quero encorajá-los a ser como estes irmãos que estavam com a Palavra aberta para ver se realmente o que era ensinado estava de acordo com a Palavra de Deus.

Sei que é assim aqui na igreja. Sei que o ensino é puro, mas no dia-a-dia, na convivência com outros, tenhamos cuidado e façamos o sempre o que nos diz João na sua carta: “Amados, não creiais a todo espírito, mas provai se os espíritos vêm de Deus; porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo. “ (1 Jo 4.11). Não se deixe enganar. Não se iluda com qualquer ensino. Analise com cuidado para ver se o mesmo procede do Bom Pastor.

Um medidor para saber se um ensino provem do Senhor é saber se o mesmo aponta para Jesus. Se não falar nada do Senhor, tenha cuidado. Sabe por que? “O sermão que não conduz a Cristo, ou do qual Jesus Cristo não é a essência, é o sermão que faz rir os demônios no inferno, mas que faria os anjos de Deus chorarem, se pudessem ter tais emoções.”[3] A igreja vitoriosa prega Cristo. Ensina a loucura do Evangelho. Ela não se deixa iludir por ideias mirabolantes e por conceitos humanos. Ela busca sempre o ensino do Senhor. Ela está fundamentada na Rocha.

Aqui cabe uma ilustração que Spurgeon utilizou em uma de suas mensagens. Ele disse o seguinte: “Você se lembra da história do gaulês que ouviu um jovem pregar um sermão magnífico, grandioso, pretensioso e bombástico; e, depois de chegar ao fim perguntou ao gaulês o que achava a respeito. O homem respondeu que não dava nenhum valor a ele. “E por que não?” “Porque não havia nele nada de Jesus Cristo.” “Ora”, disse o pregador, “mas meu texto não apontava naquela direção”. “Não importa”, disse o gaulês, “seu sermão deve seguir naquela direção”. “Não vejo o assunto assim”, disse o jovem. “Então”, disse o outro, “você ainda não vê como deve pregar. O modo certo de pregar é o seguinte: De cada aldeia minúscula na Inglaterra – não importa em que região – sempre sai, com toda a certeza, uma estrada para Londres. Embora talvez não haja estrada para outros lugares, certamente haverá uma estrada para Londres. Da mesma forma, de cada texto na Bíblia há uma estrada que leva a Jesus Cristo, e o modo certo de pregar é, simplesmente, dizendo: ‘Como posso, tomando este texto como ponto de partida, chegar até Jesus Cristo?’ “Faz quarenta anos que estou pregando”, disse o velho, “e nunca achei um texto bíblico assim, mas se chegar a achar um, passarei por sebes e cercas, e chegarei até ELE, porque nunca termino sem introduzir meu Mestre no sermão”.[4] A igreja vitoriosa é aquele que aponta para o Senhor Jesus. É aquela onde seu pastor e líderes dizem como João, o baptista: “É necessário que ele cresça e que eu diminua.” (Jo 3.30).

Meus queridos irmãos, tenho a convicção plena que é esta a atitude do vosso pastor. Sei que ele é cristocêntrico. Sei que o seu ensino é sempre no sentido de apontar o Senhor Jesus e a moldar as vossas vidas para que sejais verdadeiros cristãos. É por este motivo que esta igreja está a crescer. Ela prega a Jesus e vive Jesus no dia-a-dia, por isto, é uma igreja vitoriosa.

2 – A igreja vitoriosa é aquela que conhece e obedece à voz do Senhor 3-5; 14-16

Este ponto é maravilhoso. Mostra-nos um pastor que nos conhece pelo próprio nome. É importante compreender que: “À semelhança do bom pastor, Cristo sabe tudo a respeito de seu povo. Seus nomes, famílias, residências, circunstâncias, vida particular, experiências e provações – Cristo está familiarizado com tudo isso. Não existe uma coisa sequer, na vida da mais simples de suas ovelhas, que Ele não saiba.”[5] O Senhor deseja ter intimidade com o seu povo.

Só conhece à voz do Senhor quem conviver com Ele. Quem já ouviu o seu chamado (Mt 11.28-30). Quem tem prazer em seguir os seus ensinamentos.

Conhecer o Senhor é muito mais do que saber quem Ele e historicamente falando. É muito mais do que um assentimento racional. É saber que Jesus é o Senhor, o Criador dos céus e da terra e é entregar-se completamente a ele. É segui-lo, pois há a consciência de que sob os seus cuidados não há o que temer.

A igreja vitoriosa é aquela que valoriza a obediência. Não valoriza o activismo, mas valoriza a obediência e o seguir ao Senhor, pois o obedecer é melhor que sacrificar. Foi isto que Samuel disse a Saul e diz-nos a nós também: “Samuel, porém, disse: Tem, porventura, o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à voz do Senhor? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, do que a gordura de carneiros.” (1 Sm 15.22). Quantas vezes nos envolvemos em um activismos que se torna um fardo e um sacrifício e o Senhor espera de nós obediência e intimidade com Ele.

Uma das coisas mais difíceis para nós é obedecer. É seguir o Senhor confiadamente. Jesus utiliza a imagem da ovelha. É fantástico, pois a ovelha segue o pastor, mas tão logo tenha oportunidade de um pasto novo desvia-se para lá. Nós somos assim, mas o nosso Bom Pastor sempre vem ao nosso encontro. Ele não nos deixa. Ele se entrega completamente a nós. É um facto que falhamos, mas devemos lembrar do que Paulo disse a Timóteo: “se somos infiéis, ele permanece fiel; porque não pode negar-se a si mesmo.” (2 Tm 2.13). Ele não muda. Ele vem ao nosso encontro. Contudo o nosso desafio é segui-lo obedientemente. ´

A igreja vitoriosa segue o Senhor porque tem consciência de que caminha para locais seguros. O Senhor nos conduz para locais de refrigério. A igreja vitoriosa pode desfrutar deste refrigério produzido pelo Senhor.

É interessante notar que a obediência está relacionada com a confiança. Note o que o texto diz O Senhor chama, a ovelha segue. Ela segue porque confia no pastor. Base da vitória é a confiança no Senhor. Veja Pedro, o ousado Pedro como rompe com o seu medo e mostra-nos que quando confiamos somos capazes de ver o impossível tornar-se possível. Imagem Pedro, aquele homem rude, bruto aterrorizado com a ideia de fantasmas. Ele e seus companheiros. Mas quem nunca passou por esta experiência? Os fantasmas nos assustam, mas isto é quando somos crianças, agora depois de adultos? Depois de adultos sim e daí?

Pedro venceu o seu medo porque reconheceu o Senhor e confiou na palavra dEle. Preste atenção: “Respondeu-lhe Pedro: Senhor! se és tu, manda-me ir ter contigo sobre as águas. Disse-lhe ele: Vem. Pedro, descendo do barco, e andando sobre as águas, foi ao encontro de Jesus.” (Mt 14.28-29). Pedro confiou e por ter confiado obedeceu e deixou o barco e foi ao encontro do Senhor. Em seguida ia sucumbindo, pois temeu o vento e às ondas. Como nós, olhou para as circunstâncias, mas o Senhor estava lá e lhe estendeu a mão. Do mesmo modo como faz connosco. Ele é fiel, não pode negar-se a si mesmo.

A Igreja só é vitoriosa quando ouve o seu Senhor e O obedece. Que possais continuar a seguir o Mestre e a obedecê-lo.

3 – A igreja vitoriosa é aquela que vive em comunhão 3-4; 14-16

Este princípio não está muito claro. É um princípio implícito. Podemos vê-lo no rebanho que está no aprisco. No rebanho que segue o pastor. Estão juntas e seguem o mesmo pastor e não se afastam uma das outras.

É interessante o Senhor ter utilizado o exemplo das ovelhas. Não sei se os irmãos já tiveram oportunidade de ver rebanho de ovelhas. Sabe, elas estão sempre juntas umas das outras. Elas não brigam entre si. São unidas. É assim que deve ser a igreja Deve viver em comunhão, sem brigas e unida entre si.

A igreja vitoriosa é uma família. Este é o exemplo que encontramos em todo Novo Testamento. No livro de Actos isto fica claro em 2.37-47; 4.32-37. Paulo fala desta realidade em suas cartas. O capítulo 12 de Romanos trata muito sobre o modo relacional da igreja.

A igreja que celebra a vitória, celebra comunhão com o Senhor e com o seu próximo. A comunhão nos faz iguais. Ela nos torna família. É esta comunhão que nos faz ser um em Cristo Jesus. É a unidade da igreja. Jesus orou por isto (Jo 17). Nós somos incapazes de produzir a unidade, só podemos destruí-la. Contudo, quando estamos firmados no Senhor e nos deixamos conduzir por Ele, podemos viver harmoniosamente uns com os outros.

Não quero ser simplista É claro que há problemas. É claro que temos que enfrentar muitas adversidades Contudo, quando seguimos o Senhor, quando somos suas ovelhas, procuraremos a paz. Paulo quando escreve aos romanos diz: “Se for possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens.” (Rm 12.18). Esta é a nossa luta. É o nosso desafio.

A igreja deve viver em paz e em comunhão uns com os outros. Este processo só é possível através do perdão. O perdão é algo terrível. Ele sempre tem que conduzir à morte. Perdoar e matar o nosso desejo de vingança. É matar o nosso desejo de que a justiça seja feita. Perdoar é permitir que a misericórdia e a graça jorrem sobre a vida do outro. É trazer de volta a comunhão.

A igreja que vive está comunhão é uma igreja que faz sempre ao outro o que deseja para si próprio. Segue o ensinamento do Senhor que diz: “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós a eles; porque esta é a lei e os profetas.” (Mt 7.12). Quando a igreja age assim ela é vitoriosa, pois está a obedecer o seu Senhor e Pastor.

Guisa de Conclusão

Queridos, hoje é um dia especial.

É o aniversário da igreja. É dia de celebração. Podemos dizer como o salmista: Grandes coisas fez o Senhor por nós, por isso estamos alegres” (Sl 126.2). Hoje estamos a cantar a vitória que o Senhor nos tem concedido. Contudo, como é que podemos continuar nossa caminhada vitoriosamente?

Ø Tendo discernimento e não se deixando corromper com falsos ensinos e muito menos seguindo atrás de falsos pastores

Ø Tendo intimidade com o Senhor e continuar obedecendo-O

Ø Tendo comunhão com o Senhor e com o seu povo

Que sigamos a ser ovelhas do seu pasto. Povo adquirido para glorificar e honrar o nome do Senhor Jesus.

Que Deus nos abençoe.

Pastor Marcos Amazonas

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[1] BRUCE, F. F. João: introdução e comentário, 1ª Edição, Edições Vida Nova, São Paulo 1987

[2] ERDMAN, Charles R. O Evangelho de João, 2ª Edição, Casa Editora Presbiteriana, São Paulo, 1987.

[3] SPURGEON, Charles H. Como ler a Bíblia, – Editora FIEL, São José dos Campos SP –

[4] Ibid.

[5] RYLE, J. C., Meditações no Evangelho de João, 1ª Edição, Editora FIEL, São José dos Campos, 2000

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