A Ética dos Cetáceos

Autor: Osório Vasconcellos

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O garotinho João, de seis anos, foi arrastado por mais de sete quilômetros, preso ao cinto de segurança de um automóvel, e morreu.

O sacrifício do garoto despertou emoções e reações de natureza e amplitude diversas, a partir do âmbito familiar.

O choque e o desconsolo dos pais terão sido os mais intensos, os mais profundos, os mais lancinantes que o peito humano jamais pudera suportar. De tal modo que a revolta logo aflorada é o reflexo irrefragável de uma intuição soberana.

Na forja desses sentimentos originais, campeia a liberdade absoluta, legitimando os brados de indignação moral.

Dali em fora, a imolação do garoto ganha a praça, escapa ao rastreio da moralidade primária e nivela-se às focas em festa de baleia.

Em festa de baleia, as focas são exaustivamente manipuladas, atiradas para o alto em ziguezague, até esgotar-se-lhes o atrativo específico da ocasião, conforme orienta a ética dos cetáceos.

Há dias que a TV Globo vem dizendo em todos os jornais que “ a morte do menino João chocou e revoltou o País.”

Diz às 7.15 e desdiz na cena seguinte, às 7.18, mostrando, em ricas reportagens, o Brasil mobilizado de ponta a ponta para o iminente carnaval.

Em reforço do desmentido, dispara o choque das baterias, a revolta dos tamborins e o desassossego das mulatas como arautos da Sapucaí.

Ninguém pretende que o povo, para comprovar empatia no infortúnio de João e sua família, tenha de renunciar à folia carnavalesca. Tampouco se duvidará de que o martírio do menino não tenha esfriado alguns tambores em instantes de silêncio.

Tudo isso – dor e alegria – faz parte do espetáculo da vida, e a moral primária se encarrega de liberar um sentimento de cada vez e na medida adequada ao estímulo correspondente.

Além do mais, ainda não foram revogadas as regras de ouro, de onde pinço que a natureza não dá saltos e que ninguém serve a dois senhores.

Quer dizer então que, se o povo está mobilizado para brincar o carnaval ou, quando menos, para entrar no clima carnavalesco, o “choque” e a “revolta” que a ele atribui a Globo pela desgraça de João tiveram pouco alento?

Não vai ser por aí que se elucidará a questão.

A incoerência do “choque” e da “revolta” de um lado e a carnavalidade, de outro, é fruto de um equívoco. Aliás, um equívoco muito comum, inclusive entre letrados, como sustenta Mircea Eliade.

Não é possível julgar o comportamento da Globo à luz da moralidade primária, assim como fracassará qualquer tentativa de julgar o povo pela ética dos cetáceos.

O perigo está na possibilidade de contaminação. Contaminação, digo eu, no sentido Globo>Povo, já que no sentido Povo>Globo pode até acontecer um dia, mas tem é Zé, como se diz por estas bandas, para indicar a lonjura do fim das coisas.

Em todo caso, cabe ao povo acautelar-se, de modo a não aceitar como de sua própria lavra as atitudes que a Globo lhe empurra garganta abaixo. Compreenderá que vai brincar o carnaval, ou entrar no clima da festa, inteirado do infanticídio, mas comovido na justa proporção aconselhada pelo clamor dos sobreviventes.

O choque e a revolta, na perspectiva da moral humana, reservam-se aos que, rudemente machucados, ainda choram e, certamente, fugirão ao carnaval.

O “choque” e a “revolta” da Globo são conceitos arbitrários, vazios de sentimento, típicos da ética dos cetáceos.

Caucaia (CE), 10 de fevereiro de 2007
Escrito por Osorio de Vasconcellos às 21h36

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